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segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Filhos de pemba

Tenho pensado muito no que é (ou deve ser) um "filho de pemba" (aquele que se diz praticante de uma religião de matrizes afro-brasileira). E em minhas reflexões tenho chegado a algumas conclusões - que incluem, inclusive, um mea culpa em muitos momentos.
Um terreiro não se faz somente com um dirigente espiritual. Uma casa não se mantém limpa e organizada, após as funções, somente quando os zeladores as limpam. É bem verdade que algumas coisas da organização competem somente a eles. Mas limpeza, preparo, observância a coisas que faltam para uma "gira" perfeita é responsabilidade de todos.
Ser médium é mais do que chegar na hora da sessão, "receber" santo e ir embora. Ser médium é ser solícito e ser o primeiro a se oferecer a ajudar. Ser médium é ter a humildade de saber que não sabe de tudo e tem muito a aprender ainda. 
Ser médium é respeitar as regras da casa que frequenta, é demonstrar reverência ao congá.
Ser médium, mais do que colocar roupa branca, é demonstrar a alma vestida de pureza. Ser filho de pemba é participar de todas as atividades da casa, sejam elas espirituais, como ordinárias. É interessar-se em aprender a cantar os pontos, é ter orgulho em saber cambonar. Pertencer a uma casa de axé é antecipar-se às solicitações dos "pais" e "mães" de santo. É também se sentir responsável pelo templo que lhe dá a oportunidade de desenvolver a sua espiritualidade.
Um terreiro (pelo menos os de umbanda) não é local de auferir lucros, mas uma casa não se mantém sem gastos. Mais do que uma mensalidade, as despesas, certamente, vão além do arrecadado nas contribuições mensais. 
Enfim, um filho de pemba luta suas lutas pessoais, mas ao mesmo tempo, converte-se em um soldado da "sua casa de fé". Todos devem entender que todos têm problemas e compromissos na "vida mundana", entretanto, se estes fatos são mais prioritários que os da "vida do terreiro" é melhor repensar se é o momento de ser chamado de FILHO DE PEMBA.

sábado, 21 de março de 2020

E vamos da mesma história: quaresma or not quaresma

Resgatando e atualizando o tema, todo ano a mesma querela. A Umbanda respeita o período da quaresma ou não? O mais sério da questão não é a resposta e sim os embates que os próprios umbandistas enfrentam. Como se não fosse suficiente a pressão da intolerância que sofremos de outros segmentos religiosos, nós mesmos nos desgastamos com opiniões taxativas e rancorosas.

Já em um texto, publicado no dia 15 de março de 2017, expressei a minha opinião e tentei apresentar tantos os argumentos que justificam uma casa de Umbanda seguir alguns preceitos cristãos durante os quarenta dias posteriores à quarta-feira de cinzas, como as justificativas de outros terreiros em não manter a tradição religiosa.

De toda esta introdução, o que podemos destacar a não ser concitar os irmãos de axé a darmos exemplos de respeito ao que nos é diferente?

O que ainda não ficou claro na mente de alguns é que cada casa tem suas práticas e sua formação doutrinária. Não é sabido pela grande maioria que a religião de Umbanda tem fortes influências das matrizes africanas, europeias e ameríndias, principalmente. Há alguém que não sabe disto? Se ainda existem os que desconhecem, expliquemos mais uma vez:

Determinados terreiros mantiveram seus alicerces históricos anteriores ao advento de 1908, com o anúncio de “uma nova religião” trazida pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. Tais templos ainda se baseiam nos ritos da população escrava, miscigenada e rejeitada pela sociedade, como por exemplo, as macumbas cariocas. Nestes lugares, o sincretismo era mais do que uma interpretação de religião, era a solução para a sobrevivência.

Assim, para minimizarem as perseguições (se isto fosse possível), seguiam o calendário da religião dominante no Brasil. O respeito à quaresma, além de ser conveniente não resistir, subjazia uma crença, também, de que o resguardo do período era favorável à proteção espiritual. Em outras palavras, as práticas religiosas, ainda que com profundos vínculos com as raízes africanas, também, incorporavam a outra vertente do credo nacional. Tínhamos, portanto, o que se denomina ressignificação de antigos exercícios em um novo cenário. O encontro de diferentes culturas (africana e europeia) em um único painel gerou uma perspectiva inédita. Nasciam assim os preceitos que mesclavam diferentes origens em um mesmo campo (as religiões sincréticas brasileiras).

Temos ainda casas espiritualistas que afirmam que o episódio “quaresma” pertence às religiões judaico-cristãs e, por esta razão, não precisa estar no calendário umbandista.

As justificativas são muitas para se inserir ou descartar os eventos e costumes religiosos. Algumas apelam para a tradição e outras para questões espirituais. Seja como for, o mais importante é entender que não se pode enclausurar a Umbanda como senhores inquestionáveis de uma verdade, correndo o risco de alimentar a visão alheia de que somos periféricos e carecemos de sacralidade. Evitemos, por amor à nossa religião, deferir as flechas das acusações em direção àqueles que, assim como nós, praticam o amor e a caridade (bandeira da Umbanda). Como não me canso de dizer: se o seu terreiro é de Umbanda, não pense que a Umbanda é só o seu terreiro.

Irmãos de fé, devemos nos unir contra aqueles que denigrem a imagem da religião com “marmotagens” e distorções que ferem a sagrada lei de Umbanda, sem gastar energia supondo que respeitar ou não um rito como a quaresma nos torna mais ou menos umbandistas.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Intolerância intrarreligiosa

Temos trazido à reflexão o tema – e não sem motivos – da intolerância que as religiões que possuem influência das matrizes africanas têm sofrido em nosso país (desde sempre, infelizmente).

Basta nos atermos à história e verificaremos que os cultos cristãos-europeus foram (e são) os que mais resistência ofereceram. Já tivemos a oportunidade de tecer comentários sobre possíveis razões que fazem com que os intolerantes sejam assim chamados. Via de regra, fora as motivações políticas escusas, não aceita e critica o outro aquele que não conhece ou não querer se esforçar para conhecer. Ou ainda, os que buscam informações em lugares não confiáveis sobre a verdade (os fundamentos, as bases e as práticas) da religião.

Entretanto, hoje, voltemos nossa atenção para um processo mais doloroso de intolerância: aquela que vem dos que se dizem “irmãos de fé”.

Ainda que nossa explanação possa servir para muitas expressões religiosas, trataremos, aqui, de focar somente na Umbanda. Sabemos que somos uma religião plural, pois em nossas bases recebemos diversas influências (africana, européia, indígena, oriental, etc.). Isto nos torna belissimamente multicoloridos e, ao mesmo tempo, passamos a enfrentar alguns problemas devido ao fato de não termos uma uniformidade nas práticas.

Se já nos machucam as pedradas (e entendamos por pedra as físicas bem como as ofensas) daqueles que não nos conhecem e se armam das notícias inverídicas maldosamente espalhadas, imaginemos a dor que sentimos quando percebemos que o apedrejamento vem de “dentro de casa”.

Não “tapemos o sol com a peneira”. Há, entre aqueles que se dizem umbandista, alguns que não conseguem entender a prática alheia. Tão ensimesmados são capazes de dizer que qualquer coisa diferente dos processos de seu terreiro não é Umbanda. Se arvoram em criticar e só enxergam as suas verdades. Acaso conseguimos definir como única a Umbanda? Se a Casa de um irmão tem por base algo que a minha não tem, a dele não é Umbanda? Que pretensioso eu sou!

Por diversas vezes, dissemos (e seguiremos dizendo) que se a sua casa é de Umbanda, a Umbanda não é só a sua Casa.

É bom que ressaltemos (e é bem verdade) que, ultimamente, temos visto um grande número de lugares e pessoas se dizendo umbandistas, com práticas que denigrem a religião e ferem os fundamentos do que somos. Aqueles famosos “marmoteiros” que fazem trabalhos de magia que não condizem conosco ou os que “incorporam” entidades no mínimo, esquisitas (para não dizermos aberrações). Contra esta categoria temos que lutar! Temos que ganhar voz todos nós: dirigentes de terreiros, médiuns, ogãs, frequentadores de boas casas, etc. Não podemos nos calar diante de fatos tão grotescos que denigrem a nossa fé.

Mas devemos ter muito cuidado para que não acabemos indo para o extremo da intolerância, pois se assim o fizermos, estaremos agindo da mesma forma como os nossos detratores têm agido conosco ao longo dos anos.

Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Antes de apontar o dedo para uma prática umbandista, lembre-se de investigar o que a conforma. Busque conhecer qual é a história daquele local, quem são as pessoas que constituem o terreiro. Não corra o risco de criticar antes de buscar entender.

Intolerância é crime de qualquer jeito: seja partindo daqueles que estão “de fora” como os que se julgam “estar dentro”.

Axé!

Nosso Saravá!

quarta-feira, 10 de julho de 2019

As diferenças de Umbanda

Que diferença há entre um terreiro que possui um bom projeto de divulgação nas mídias sociais, bem estruturado, com canal de vídeos dos eventos, com post esclarecedores sobre Umbanda, um número gigantesco de seguidores e record de acessos e aquela casinha, no fundo do quintal, de dezesseis metros quadrados, onde muitos da corrente mediúnica, bem como seus seguidores, não possuem nem uma rede social?

Quais seriam as divergências entre aquelas casas com altares escalonados e iluminados com neon e outras com seus congares sendo uma única mesa com as imagens, velas e flores?

O que nos faria apontar a “qualidade” das giras? A quantidade de médiuns na corrente? As diferentes guias nos pescoços? A fila de consulentes na porta desde muito cedo? As roupas de diferentes cores segundo a sessão?

Talvez a possibilidade de haver no centro alguma pessoa de notoriedade pública capaz de tirar a casa de algum problema? Um frequentador de profissão ligada ao Direito que possa entender de leis e ajudar à casa a não enfrentar nenhuma sansão?

Se tudo isto pode “parecer”, pelo aspecto externo, algum item levado em consideração no momento de se dizer que uma casa é de Umbanda, o legado mais importante passa longe.

O que diz que uma casa é de Umbanda? Que critérios podemos estabelecer para isto?

Ando me perguntando onde estão os princípios formadores de nossa história?

Por onde caminha o humilde que acorria a benzedeira porque dinheiro não tinha pra procurar “um dotô”? Cadê a roupinha branca, modesta mas alva, alva dos irmãos de fé? Alguém tem ouvido por aí os conselhos, com alguns errinhos de concordância nominal, mas absolutamente certeiros nas soluções?

Longe de mim estar fazendo apologia de que não podemos nos adaptar a uma nova realidade. O que o meu saudosismo está gritando é pela recuperação da essência.

O que me faz umbandista não são as guias de cristal no pescoço (ainda que eu possa tê-las). O que confere a uma casa a honra do título de templo umbandista não está no conforto de cadeiras, luzes e ventiladores (mesmo que não seja um sacrilégio ter tudo isso).

Se alguma entidade que baixa nos terreiros disser algo diferente do que acredito – que a (Umbanda é amor e caridade – por favor, avise-me, pois além de estar desatualizado, devo estar louco.

Saravá, povo de Umbanda. Saravá, Pai Oxalá!

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Filhos de um mesmo Deus

É triste constatar que debaixo do céu da existência todos sejamos frutos do mesmo ser criador e ainda não tenhamos entendido isto. Lindos são os discursos que empoderam as religiões, porém nos afastam do Mandamento Supremo do “amai-vos uns aos outros”!

Sabemos que, na Lei do Livre Arbítrio, haverá o momento de reequilibrar as ações. Tal certeza não deve nos fazer esperar calados uma justiça superior. Da mesma maneira que não podemos nos intitular agentes das correções alheias. Em outra palavras, nem devemos acatar, em silêncio, as atrocidades que desferem contra as nossas crenças, assim como não é lícito retribuir os ataques com iguais instrumentos.

Em uma linha muito tênue entre se resignar e fazer justiça com as próprias mãos está o caminho do aprendizado.

O intelecto humano é capaz de assimilar conceitos fundamentais como a gênese divinal do homem; consegue entender que, em que pesem algumas diferenças mitológicas, somos oriundos de uma mesma Força Superior, o que nos torna, em tese, irmãos da mesma caminhada chamada vida.

Se por um lado este fator racional possibilita-nos construir as relações sociais pautadas em Instituições de fé como as religiões, somos desbaratados quando desvinculamos a compreensão teórica do maremoto emocional que nos faz defender as nossas convicções. Somos avassalados pelo desequilíbrio das tentativas de convencer os outros de que somente aquilo que cremos é o que se aproxima mais da verdade. E para tanto, somos capazes de tudo. Há casos, inclusive, onde a violência ultrapassa as raias dos discursos e se transforma em atos.

Vivemos isto desde sempre, mas com o advento das notícias on line, on time, parece-nos que os casos aumentaram sobremaneira. Pelos mais diversos canais de informação vemos crescer o número ações de intolerância. Em nome de um mesmo Deus criador, homens se arvoram o direito de serem mais dignos do reconhecimento da sua linhagem divina que outros. Colocam por terra todas as doutrinas convergentes da origem da raça e terminam por dar testemunho contrário a tudo que o Senhor Jesus nos deixou de legado: no amor ao próximo!

“Até quando” tem sido a minha constante indagação diante de tantas atrocidades cometidas em nome do Pai. Certamente para tudo há um propósito e ao termos que viver e conviver com tamanhos disparates é porque está em nosso destino aprender com os conflitos.

Filhos de fé, a Umbanda nos chama na resistência, não mais da chibata das senzalas, mas na construção de uma história digna. A bandeira de Oxalá tremulará sempre que houver de nós o comprometimento com o reto agir, longe das distorções de uma falsa liberdade que gera problemas de identificação em nosso meio. Se outras denominações religiosas nos criticam pelo que veem (a aparência), reflitamos que para além do que deixamos transparecer para ter que demonstrar.

Dirigentes espirituais, médiuns, e toda a palheta de irmãos que pisam no terreiro temos a obrigação de refletir a luz divina que em nós habita. Deixemos de lado as “picuinhas” geradas a partir das diferenças de ritos para nos unirmos a uma causa muito mais nobre: a honra de nos levantarmos diante de todos e dizermos “sou umbandista”! Axé.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Ser umbandista


De tudo que poderíamos falar sobre o que define um umbandista, creio que o mais valioso dos traços marcantes seja o fato da atenção ao fazer o bem. Claro está que todas as demais características de quem diz professar a religião de Umbanda são importantes e nos faz ter orgulho da fé que abraçamos. É uma honra sermos sensitivos integrantes do grupo mediúnico de uma Casa; é um aprendizado constante frequentarmos as giras e sessões e, com as entidades de luz, guias e Orixás, estarmos em um processo evolutivo; igualmente é gratificante participar dos eventos de um terreiro, sejam eles, inclusive, o de limpeza da Casa, as Festas e a convivência com os demais irmãos de fé. Tudo isto é verdade!

Entretanto, cala fundo em minha alma a chance que a religião nos dá de podermos ajudar a nós mesmos através do auxílio ao próximo. Todos vivemos momentos difíceis. Todos atravessamos, vez por outra, tormentas. Quantas vezes, a Umbanda, na figura de seus guias, em terra, foram nosso alento e sustento? Quanto aprendemos com eles a superar a dor e as situações de dificuldades?

Como bem nos deixou de legado o Caboclo das Sete Encruzilhadas:

a Umbanda é a manifestação do espírito para a caridade. Não podemos perder de vista esta belíssima mensagem.

E como estamos fazendo isto? Que movimento temos tido em relação a cumprir com tal fundamento?

Como diz a sabedoria popular, “ninguém é tão pobre que não possa ajuda, e ninguém é tão rico não precise de auxílio”. Sempre podemos fazer algo por alguém e deve ser um lema para os umbandistas.

Ir ao terreiro, cumprir com sua missão de médium incorporante, participar das giras, tudo isto nos traz desenvolvimento, mas falta ainda o aprendizado da convivência com aqueles que passam (momentaneamente ou de forma mais longa) pelas privações e revezes do mundo.

Diante desta realidade, surgiu a ideia de criar um projeto para auxiliar – e assim nos auxiliar – no crescimento como fraternos seres que somos. A UMBANDOBEM é isto. Uma chance de juntar irmãos com o propósito de movimentar a energia agregadora. Umbandobem terá campanhas de auxilío a orfanatos, asilos, terreiros, e tudo o mais que pudermos. Para tanto precisamos das mãos dadas como a grande ciranda de Deus.

Conheça Umbandobem, siga nossas redes sociais (Instagram e Facebook), acesse nosso site, voluntarie-se (dirigentes espirituais, zeladores de santo, cambonos, etc.). Sozinhos somos errantes, juntos somos viajantes de um lindo trajeto chamado vida! Contamos com todos!

Saravá Umbanda. Axé!






sexta-feira, 10 de maio de 2019

O que é a Umbanda?

Este mês, faço um convite aos meus irmãos de fé para que empreendam uma pesquisa informal sobre a nossa religião. Sabemos que não podemos falar sobre a Umbanda com todas as pessoas que nos cercam (seio familiar, ambiente de trabalho ou colegas de lazer), mas sabemos, também, que há alguns com quem podemos tocar no assunto.

Minha sugestão é a de que conversem com os que não professam a nossa fé. Façam uma sondagem sobre o que elas já ouviram falar sobre a Umbanda, perguntem (e tentem não responder antes de escutarem tudo que elas sabem) qual a visão que têm, a experiência que já tiveram (se tiveram), e a visão que construíram a partir de todas as informações e vivências.

É natural, que diante de alguma dúvida de interlocutor, nosso ímpeto tente ser mais ágil que nossa paciência em ouvir, e acabemos por tentar preencher as lacunas da visão de quem está conversando conosco. Tentemos nos manter serenos (como é o perfil de quem está pesquisando) e, somente após obtermos as respostas, apresentemos o nosso entendimento.


Quais os motivos que me levam a trazer esta proposta para os leitores?


Não quero adiantar algumas conclusões, mas gostaria que considerassem alguns pontos importantes sobre a religião que se verificarão no processo desta “pesquisa”. O que é a Umbanda? Quem pisa no terreiro sabe? Quem nunca foi a uma gira entende?

Não importa se você tem 1 ou 30 anos de Umbanda, se é dirigente espiritual de uma casa, se é médium ou só assistência.

Tenho, reiteradas vezes, dito que é tempo de refletirmos sobre a Umbanda. Os tempos atuais impõem a necessidade de entendermos nosso lugar no mundo (em todos os setores). Não há instituição que se mantenha sem que se conheça de forma interna e sistêmica como ela se mantém.

O convite pode parecer que está sob um argumento político, porém muito maior que isto está a necessidade de nos enxergarmos como um órgão social e, como tal, que convive e interagem com os demais.

Alguns confirmaram suas suspeitas a respeito do que as pessoas pensam sobre a Umbanda e haverá os que se surpreenderão com algumas colocações. Aceitam o convite?

Saravá, Umbanda! E muito axé para todos nós!

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Um projeto que não pode acabar

A Revista do Leitor Umbandista nasceu no coração e na mente de um irmão de fé que tinha o sonho de divulgar a boa literatura umbandista sem estar vinculado a projetos político-partidários ou que buscassem auferir ganhos financeiros ou lucrativos. O sonho se tornou realidade, mas quis o destino que nosso amigo Luciano Pereira (http://blog.umbandavale.com.br/) fosse habitar o Orum.

Os colaboradores da Revista, em homenagem ao legado de Luciano e a tudo que o blog representa, decidimos manter a Revista.

No mês de abril, ainda sem estar vinculada a um site específico, conseguimos disponibilizar a revista pelo Google Drive e gostaríamos que nossos amigos leitores nos ajudassem a divulgar

https://drive.google.com/file/d/1E3YHWzHmXLWij_wrIux7GSed5HlY3WS_/view

Estamos certo de que, de onde Luciano nos vê, ele está muito feliz com nosso esforço de manter este sonho.

Obrigado a todos, em nome de nossa Umbanda, em nome dos escritores umbandistas, de nossos Orixás, Entidades de Luz, Amigos espirituais.

Axé

Saravá

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Saravá, Seu Zé

As voltas que o mundo dá são muito curiosas (ou pelo menos, aos nossos olhos assim parece). Quando comecei a trilhar os caminhos da Umbanda, uma das primeiras entidades que me disse que eu deveria estar do “lado de dentro” do terreiro foi o Seu Zé Pilintra. Naquele dia, ainda me falou que todas as vezes em que eu fosse tomar uma cerveja, não esquecesse de brindar e “chamá-lo” (ato que até hoje cumpro com alegria).

Passou o tempo, Seu Zé, com toda a razão de sua observação, tem sido meu companheiro e muito tem me ensinado sobre o mundo maior que o mundo que meus olhos conseguem ver.

Eis a razão pela qual meu texto de hoje tem como base a figura emblemática do “malandro”. Uma Linha ainda não totalmente conhecida, mas, enormemente amada.

Muitas pessoas, mesmo não sendo umbandistas, nutrem uma grande simpatia pelo moço de tenro branco, gravata vermelha, chapéu panamá e sapato bicolor.

Quando digo que “ainda não totalmente conhecida” é porque vejo que em alguns locais, em suas práticas magísticas, os Malandros (e todo o campo semântico envolvido) oscila a compreensão de o que é a Linha, como se manifesta e quem a compõe.

Somos uma religião relativamente nova, se comparada a outras mais seculares. Assim, se estamos em processo de consolidação ainda, é de se compreender os motivos de encontrarmos algumas lacunas em determinadas Linhas e conceitos.

Baseado em tudo isto e também na minha própria doutrinação como médium (e as conversas “ao pé do ouvido” que Seu Zé me proporcionou) é que me aventurei na escritura de mais um livro.

Gostaria de fazer um convite a todos os leitores, irmãos de fé e amigos, para que venham caminhar comigo nas histórias que Seu Zé do Baralho me contou, tanto de sua última encarnação, como também sobre seu processo de aprendizado “fora do corpo” até receber a missão de se tornar uma entidade de Umbanda.

No livro, pequeno, de linguagem clara e objetiva, veremos algumas das diferentes formas de compreender a Linha dos Malandro, as suas formas de atuar e como se dá a relação entre as entidades que trabalham com um médium.

Espero que gostem deste livro, pois foi escrito com muito amor e respeito por “alguém” que tanto nos ensina, com suas falas bem-humoradas, mas absolutamente sérias, sobre a vida.

Aos que se interessem, podem contar comigo, seja pelo contato por aqui no blog, por e-mail (dsfilho2016@gmail.com)ou pelo Instagram (dsfilho2016).

Muito axé para todos. Salve a Malandragem. Saravá, Seu Zé!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Cortando na própria carne

Sabemos que desde sempre, sofremos o preconceito de muitas denominações religiosas (principalmente as mais vinculadas à cultura europeia). Já no sangue e suor das chibatas, os nossos ancestrais negros tinham que esconder suas crenças, disfarçá-la no culto aos santos católicos para encontrar conforto e alento dos seus orixás para aguentar as agruras da escravidão.

O cenário mudou para a urbanização das cidades, mas as perseguições seguiram. Apesar da criação de leis que punem todo tipo de intolerância, consagração de Dias comemorativos etc., ainda vivemos conturbações e falta de compreensão. Somos atacados; as Casas de santo quebradas; xingam-nos de adoradores do “outro”, ou seja, a ignorância galopa a passos largos e as consequências vemos expostas nos diversos tipos de mídias.

Entretanto, não podemos “tapar o sol com a peneira”! Nossas religiões que possuem também influências africanas enfrentam problemas internos. Por diversas razões (uma delas talvez seja a falta de dogmas e regras escritas), há uma diversidade de práticas que acarretam em distanciamentos de leis fundamentais. Agora, então, na Era cibernética – ou pós-moderna, como quiserem – vemos “invencionices” que atrelam à Umbanda. São associações com outras artes adivinhatórias; inserção de falanges duvidosas, e tantas outras coisas que nos assustam.

E os leigos “do riscado da pemba” nos julgam pelo que veem. Tomam o todo pela parte. Em outras palavras, os que nos criticam o fazem por verem tanta tolice intitulada como umbanda. Eles já não querem mesmo nos respeitar, e ainda têm essas informações truncadas e equivocadas… olha “o prato cheio” para lançarem suas farpas sobre a religião.

Já passou da hora de uma atitude ser tomada. Uma religião inteira não pode “pagar” pelos desmandos de alguns. Já sofremos (no passado e no presente) muito para que tenhamos dentro dos próprios terreiros quem suje a nossa imagem com as tintas escuras da marmotagem.

A Umbanda, como um todo, e seus princípios precisam de resguardo. Não estou aqui levantando bandeiras de policiamentos ou repressões. Creio firmemente que nosso dever reside em usarmos da palavra como instrumento de alerta e disseminação do que realmente nos conforma.

É hora, é hora! Não é possível ver tantas coisas em nome de nossa religião servindo de argumento para os detratores da Umbanda. Se até nós reconhecemos que algumas práticas são mentirosas, ardilosas e difamadoras, o que podemos esperar dos que buscam avidamente motivos para nos vilipendiar?

Lembremos, aqui, alguns fundamentos básicos de nossas Casas:


  • - somos uma religião que prega o amor e a caridade (não cobramos por isso);
  • - nossas tradições, em sua maioria, transmitidas pela oralidade, são sagradas;
  • - temos os mistérios da religião, mas não somos misteriosos;
  • - não cultuamos como um de nossos deuses a figura, criada pela tradição cristã, do chefe dos portais do plano infernal;
  • - não atribuímos títulos de líderes religiosos em cursos. Nossa formação sacerdotal é tempo de aprendizado no chão do terreiro, respeito aos mais velhos, olhos e ouvidos atentos e, obviamente, a orientação do Plano Superior;
  • - estudamos sobre a religião sim, mas não somos escola de “ensinar a ser umbandista”. As informações JAMAIS substituirão a formação;


- Repeito, fé e dedicação constituem o sustentáculo da Umbanda!

Por isto, meus irmãos de fé, sejamos o vento que tremula a “bandeira de Oxalá” parar que, desfraldada, ela mostre ao mundo inteiro a nossa Umbanda!

Axé e Saravá!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Querer, precisar e merecer

Três verbos que não são exclusivos para a compreensão dos irmãos de fé umbandistas. Entretanto, como nosso blog tem por objetivo colaborar com as reflexões sobre a religião de Umbanda, vejamos qual a relação existente entre eles, tomando como exemplo uma conversa entre um consulente e um preto velho.

Era dia de consulta e a moça, muito aflita, espera o momento de conversar com o preto velho. Chegada a sua vez, ela se senta diante da entidade, pede-lhe a bênção e desata a falar:

- Vô, estou muito nervosa. Preciso muito da sua ajuda para resolver um problemão!

- Que que “suncê” qué desse nego, fia?

- Tô querendo muito mudar de cidade, vô! Não aguento mais a minha família. Depois que minha mãe e meu irmão morreram, minha cunhada e meus sobrinhos têm me desprezado muito. Como eles moram perto de mim, vejo sempre da janela que eles fazem festas, reuniões de família e nem ligam que eu existo. Quero muito ir embora. Preciso, vô! “O que os olhos não veem, o coração não sente”, não é isso que dizem?

- Antes de carquer coisa, fia, suncê pricisa entender argumas coisas. Nem sempre o que se qué é o que se pricisa. Num é ansim não!

- Como não, vô? Eles me maltratam ignorando minha existência!

- Suncê é qui tá falando que eles martratam suncê. Vô explicá pra suncê! Das vez, quando arguma coisa incomoda a gente, a gente pricisa entendê purque ela incomoda, num é? Já se pirguntô purque eles faz isso? Num tô falando que eles num tem culpa não. Mas aqui, o importante é vê como suncê podi crecê como pessoa. Sinhá, quando insinava pros moreque da senzala sobre as coisa da bríblia, dizia: “se o seu dente mordi a sua língua, suncês arranca o dente fora?” E isso é vredade. Si arrancá o dente resolvesse a questão, todo mundo ficava era banguela pra num tê probrema, num é?

- Mas se eu me mudar, vou esquecê-los também e sofrer menos.

- Suncê tá certa disso?

- Bom, eu acho, né, vô!

- Oia só, nem sempre o que as pessoa qué é o que elas pricisa pra melhorá, sabia? Nem sempre o que se acha que se pricisa é o que elas merece. Suncê já parou pra pensar proquê Pai Oxalá corocó suncê ali naquele lugar? Num tô farando que num é pra saí. Tô farando que antes de pedir, pricisa escutá o coração e a alma pra senti o que realmente é importante.

A conversa levou um bom tempo, a jovem, secando as lágrimas, prometeu ao preto velho que durante a semana toda refletiria sobre a conversa para na outra consulta voltarem ao assunto.

O maior ensinamento da conversa entre o preto velho e a moça reside em um dos fundamentos mais bonitos da Umbanda: a melhora interna de cada um. Nossa religião não é comércio onde a pessoa chega, escolhe a mercadoria exposta e leva para o caixa para pagar. As entidades de luz que “baixam” em nossos terreiros nos ensinam, a todo tempo, que viver é buscar atravessar as dificuldades da vida, sem perder a fé! Nenhum umbandista pode ter em mente que, pelo simples fato de frequentar uma Casa santa, ele se livrará de tudo aquilo que “pensa” ser um estorvo.

A Sagrada Lei de Umbanda nos mostra nossas fragilidades, como também nos faz crer na força que temos. Com o cotidiano e a convivência do terreiro, vamos aprendendo que não somos infalíveis e muito menos inatingíveis, mas somos protegidos! As religiões espiritualistas não estão para nos servirem como “moeda de troca” segundo a visão equivocada de alguns. O contato com as forças das naturezas manifestadas nas formas plasmadas de entidades nos traz a oportunidade de autoconhecimento.

Esta é a razão mais clara de entendermos que nem sempre o que queremos é o que precisamos. Muitas vezes, para nosso maior aprendizado, o plano divino nos permite estar em situações onde enfrentá-las é mais importante do que nos afastar. O “livramento” reside na questão do merecimento que não é julgado por nós. Não temos condições, ainda, de sermos os juízes isentos das nossas próprias atitudes. Tudo fica a cargo e critério do divino.

Desta maneira é que as palavras do preto velho na conversa com a jovem aflita se fazem sábias. Antes de “pedir” qualquer coisa, devemos ter um exame criterioso sobre nossos dias para entender se o que “desejamos” é possível (e por que é) ou se “precisamos” estar (ou viver) algo e, ainda, se é de nosso merecimento!

Por isto, caro amigo, irmão do caminhar, antes de pisar no terreiro para pedir, ouça a sua alma e pergunte-se:

quero, preciso ou mereço.

Ninguém está dizendo que não lhe é facultado pedir. Estamos dizendo que é preciso estar preparado para vivenciar as experiências que a vida nos reserva com força, foco e fé!

Saravá, Umbanda. Axé, irmãos.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Respeite a minha Umbanda porque eu respeito a sua

Mais uma vez, trago-lhes um tema sensível sobre a nossa religião que merece ter um espaço para a reflexão: os problemas intrarreligiosos. Tenho, por diversas vezes, apresentado alguns questionamentos que são frutos de conversas com irmãos de fé que labutam pela organização, respeito e legitimidade da Umbanda.

O cenário atual caracterizado por uma maior informação sobre os acontecimentos nacionais tem revelado um aumento significativo de enfrentamentos relacionados a questões de incompreensão e não aceitação da crença alheia. Basta que abramos um de nossos navegadores e coloquemos “intolerância religiosa” para vermos dados estatísticos, política para combate de crimes religiosos, solidariedade e apoio diante das atrocidades. Ainda é pouco efetivo, mas são os primeiros passos. Que não percamos a esperança e mantenhamos a crença de que o caminho é a harmonia e evolução humana!

Entretanto, o cerne de nossa “conversa” não ultrapassará os muros do terreiro. Os problemas inter-religiosos são patentes, como mencionamos acima, nas redes sociais, nos noticiários e na vida (quem de nós nunca ouviu um umbandista ou candomblecista relatar um episódio de violência sofrida?).

Retomando a estrutura de apresentar algumas discussões que tive com amigos-irmãos, no final do ano passado, participando de um bom debate sobre nossa Umbanda, vimos diversas histórias de adeptos da religião revelando uma determinada inflexibilidade com relação à prática de outras Casas. Imaginem, caros leitores, o que podemos pensar quando vemos umbandistas, cheios de razão, dizendo que a Tenda de outro umbandista não é Umbanda pois não segue os mesmos passos da Casa de quem fala? Mais ainda, se compreendemos a pluralidade da religião (pelos motivos sociais, regionais, culturais, históricos, etc.), como podemos apontar o dedo para outro irmão de fé e afirmar que para ser Umbanda tem que ser assim, assado, cozido e ensopado?

Creio que muitos estão, neste momento, entendendo o teor do texto e estão se lembrando de cenas onde a situação aconteceu.

Já mencionei, em meses anteriores, uma das minhas cautelas ao ver os “donos” da Umbanda ditando suas regras como dogmas e criticando aquilo que diverge de suas formas de cultuar o sagrado.

Longe de mim que fique parecendo que sou contrário a medidas de proteção e prevenção da religião, pois, na mesma medida das intolerâncias inter e intrarreligiosas, vemos também um processo de divulgação de fundamentos que não são de Umbanda e que alguns “sem-noção” tem afirmado pertencer a nossa fé. Os marmoteiros, os criadores de rituais estapafúrdios, isto sem falar nos “inventores” e complicadores de algo que é tão singelo, simples (sem ser simplório) que é a Umbanda.

É triste chegarmos a tais conclusões, mas a Umbanda, em expansão, precisa de cuidados. A Umbanda não é de ninguém, mas é de todos. A Umbanda não tem dogmas, porém tem fundamentos. É tempo de se pensar em formas de alinhamentos, sem enclausurar. Não podemos perder a chance do diálogo fraterno. O que não é mais possível é percebermos o que alguns estão se arvorando como controladores das bases da religião e permanecermos parados, pois corremos o sério risco de que em pouco tempo, além das diferentes formas da mesma fé, vejamos criações absurdas que venham a ferir o amor e a caridade, símbolos da religião natural de Umbanda.

Termino minhas palavras valendo-me – mais uma vez – da frase de um grande amigo espiritual que me acompanha e muito me ensina:


“A Sua casa pode ser de Umbanda, mas a Umbanda não é só a sua casa!”

Pensemos sobre isto!

Saravá, Umbanda. Axé, irmãos de fé!

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A Umbanda nos tempos de hoje

Sei do risco do tema, mas não posso evitar abordá-lo. Tentarei, na medida do possível, e sem “criar mossas”, apontar alguns pontos de vista, a partir do cenário atual, de como devemos ter atenção com relação aos rumos das nossas religiões com fortes influências de outras matrizes que não exclusivamente a cristãs.

O mundo, por diversos motivos que aqui não nos cabe apontar, encontra-se em um momento de tensão entre os blocos conservador e progressista. Muitos dos resultados estão presentes nas relações sociais e políticas. Vimos, faz pouquíssimo tempo, estes confrontos travestidos no binômio partidário de “esquerda” e “direita”. Acirradas opiniões, inflexíveis papéis, contendas familiares e de amizades em nome de informações tantas vezes distorcidas da realidade. O planeta globalizado “jorra” notícias que não se preocupam com comprovações, muitas vezes, e os homens, presos às telas de seus aparelhos, terminam tomando como totalitárias algumas fragmentadas verdades.

E o que isto tem a ver com as religiões?

Não é difícil encontrar os pontos de contato. Vejamos.

No passado, não muito distante, as relações de poder ou estavam diretamente nas mãos de determinados segmentos religiosos, ou algumas igrejas se encontravam muito imbricadas nas decisões políticas de países e na condução das “regras” de convivência social. Prova disto está em alguns livros sagrados que ditam normas e fazem seus seguidores crerem que os papéis sociais são esse, aquele ou aquele outro. Criaram-se sociedades machistas, algumas outras intransigentes, outras ainda perseguidoras em nome do divino, e por aí vamos.

No Brasil, a catequização dos “selvagens” e “insubmissos” trouxe dor, fugas, lágrimas e gerou preconceitos na mesma medida em que trouxe alianças para a Igreja católica que lhes foram muito úteis. Não é uma crítica, é uma constatação, como também vemos em grande parte do continente sul-americano!

O resultado (que também não é uma novidade para ninguém) foi o desenvolvimento de outras práticas religiosas de forma clandestina e sob repressão (inclusive do Estado).

Passou o tempo, o grito de conscientização e de “modernidade”, que diz não haver motivos para repressões e/ou perseguições, foi ouvido e buscou dar às religiões um espaço diante da legalidade, mas ainda muito distante da liberdade religiosa (que somente na teoria fica bonito falar).

Alinhavando o tema das tensões dos conceitos político-social de conservador e progressista (direita e esquerda e por aí vai), e sabedores de que nossas religiões por não possuírem dogmas (que por um lado não nos amarram, mas por outro, franqueiam a práticas incontroláveis), parece-me oportuno refletir sobre o futuro que nos aguarda.

Não é a apologia da necessidade de se criarem regras fixas através de dogmas, mas pensarmos em uma forma de como buscar a legitimação da religião.

Após os episódios políticos recentes no país, vi um grande número de pessoas se dizendo assustadas por acreditarem que alguns segmentos serão perseguidos ou, até mesmo, extintos. Não sou o arauto da sombra, porém não me considero um esperançoso fora da realidade. Há coisas que não podem mais voltar para trás.


"Problemas intrarreligiosos podem colocar em cheque a nossa liberdade de expressão."


A questão é: podemos vir a sofrer algum tipo de sanção? Óbvio que sim. Somente como exemplo rápido, a cidade do Rio de Janeiro tem visto alguns “desmandos” quando se tratam de religiões diferentes das professadas por determinados governantes. (novamente não é especulação, é fato!)

Outro ponto que corrobora com o alerta – e este tenho debatido muito com outros irmãos de fé – é a situação em que a Umbanda se encontra. Há uma relação tensa entre determinadas “escolas”, principalmente pela propagação de fundamentos e práticas através de cursos pagos e da internet de forma indiscriminada. De um lado, a explicação de que são somente informações (e não formação) e do outro a contestação pela tradição do tempo que se deve ter de terreiro (aprender fazendo com orientação dos mais velhos).

De qualquer forma (e já ouvi de pessoas de outras religiões), a percepção que alguns têm é que nossa religião ainda carece de organização. Muitos entendem que se há tanta diversidade em abordar e conduzir a religião é porque nossas práticas são primitivas e desprovidas de seriedade. A falsa impressão de que cada um faz o que quer a seu bel-prazer!

Sabemos que estamos longe disto, mas, os problemas intrarreligiosos podem colocar em cheque a nossa liberdade de expressão.

A solução não é simples e demandaria um processo de médio e longo prazo. Recentemente, li comentários e textos sobre a criação de uma “Carta Magna” da Umbanda. Vi que não houve (e ainda não há) unanimidade, mas me parece um começo.

Como a questão da Carta (ou outro documento normatizador ou, ao menos, que possa servir de legitimação) é complexo, convido-os ao nosso próximo texto.

O que hoje queria era iniciar uma reflexão sobre, diante do que estamos vivendo, como devemos prosseguir.

Na certeza de que a Umbanda é nossa bandeira – a bandeira de Oxalá –, fica aqui o meu pedido de maleme aos nossos orixás!

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Vozes de alerta para a Umbanda

O ritual é sempre, mais ou menos, o mesmo. Após ouvir, ler e me expressar em um debate de tema sensível, isolo-me em meus pensamentos. Assim foi esta semana quando, em um grupo do qual faço parte, a ideia central era: o que estão fazendo com a “nossa” Umbanda?

Nas discussões e nos posicionamentos (aliás, na grande maioria, muito lúcidos e realistas), vi diversas áreas em comum com minhas opiniões e percepções que externo agora em formas de questionamentos.

A Umbanda é plural. Um dos motivos de sua diversidade deve-se a não estar vinculada a dogmas e outros alinhavos organizacionais como outras religiões. Deixarei de lado as questões relacionadas às origens de suas matrizes escravas e os problemas advindos das relações sociais.

Quero centrar-me na ausência de um direcionamento normativo. Não há um livro sagrado, não há um único líder a ditar normas e nenhuma obrigatoriedade de responder a qualquer organismo político por suas práticas e formas de conduzir as cerimônias. Em suma, sem medo de errar, cada casa pode praticar a religião de sua forma.

Se por um lado não são amarras, por outro, vemos surgirem tantas diferentes maneiras de interpretação, que esbarramos (também sem o menor receio de estar afirmando uma bobagem) com alguns distanciamentos de fundamentos que nos levam a questionar se se trata mesmo de Umbanda.


"Em um terreiro, todos têm as mesmas condições de aprenderem tudo da mesma maneira e no mesmo tempo?"


Ouvi uma história tão séria e tão perigosa naquela conversar do grupo que me referi acima, que pareceu-me oportuno trazer à reflexão.

Um jovem procurou um Pai de Santo e lhe perguntou se ele poderia fazê-lo sacerdote também. O Zelador da Casa, calmo e cuidadoso, explicou que para que uma pessoa se torne Sacerdote há um caminho longo (de tempo e de aprendizado). Continuando a explicação, disse que já havia feito isso com outros Filhos e que requereria um processo diferenciado, com recolhimentos, rituais específicos, fases a serem vividas e vencidas, etc.

O rapaz agradeceu a atenção e se foi. Nunca mais o Pai de Santo viu o candidato a zelador. Passado algo como um ano, ano e meio, para a sua surpresa, o “velho” sacerdote deparou-se com um novo dono de terreiro. Sem que seja surpresa nenhuma para o leitor, era aquele novato que havia buscado o templo pedindo para se tornar Pai de Santo.

Sem entrar nos meandros de uma análise particular, se o jovem trazia bagagem, se era sua missão, ou outro aspecto qualquer, o que o episódio suscitou em todos nós foi como conceber “cursos para formar médium”?

Em outros textos também apresentei alguns questionamentos sobre isto e, provavelmente, de forma veemente, demonstrei minha inquietação com algumas consequências que a modernidade tem trazido para a “raiz” da religião. Se a rede mundial de computadores facilitou muita coisa, também trouxe riscos como vemos de vídeos e “aulas” concedidas a qualquer pessoa sem o menor critério no que diz respeito à sensitividade. Para alguns basta pagar que recebem um certificado de magia, de compreensão de entidades, de estudo sobre orixás. Outros – procurando achamos – nem precisam “comprar” os cursos por serem grátis. Fala-se sobre qualquer aspecto de trabalhos para atrair amor, conseguir dinheiro, afastar “inimigos”, e um sem-fim de temas.

Permitam-me perguntar (será que estou sendo radical?): em um terreiro, todos têm as mesmas condições de aprenderem tudo da mesma maneira e no mesmo tempo? A máxima de que todo homem é sensitivo justifica o fato de que do outro lado da tela do computador, ele pode se “formar” como médium?

Haverá os que dirão que tais cursos têm por finalidade somente informar. Que a questão é o conhecimento e que a formação é no terreiro. Lindas as explicações, mas muito longe da realidade. Quem controla esta “verdade”? Quem pode afirmar (e acompanhar) que a pessoa que realiza um curso depois não se intitula sacerdote, mago, etc.?

Onde anda o cambono que aprende, dia a dia, com o Preto Velho? Cadê as “famílias de Santo” que, com alegria e disposição, vão ao terreiro para limpar o congá, para preparar a casa para a gira ou para conversar com a “Mãe” e aprender a tradição e as histórias? E o mais sério, onde estão as histórias que os próprios médiuns podem contar das coisas vividas em sua trajetória espiritual?

Irmãos, não proponho, jamais, um ato de repressão, pois caso contrário, agiria como os mesmos algozes que perseguiram nossos ancestrais. Meu único objetivo é registrar a necessidade de estarmos atentos para determinados rumos que alguns estão dando a nossa religião. Não tenho uma solução mágica para o problema, mas continuo a crer em uma forte maneira de combater desmandos e arvorados “donos” dos rituais religiosos: a propagação das ideias (inclusive, pelos mesmos meios que vendem a religião).

Não podemos nos calar diante do que nos parece equivocado. Não somos detentores da verdade, mas, pelo que pude ver nas falas de meus irmãos de fé, há algo que precisa ser feito. Assim, que nossas vozes ecoem aos quatro cantos para garantir a beleza de uma Umbanda variada e multicolorida, porém coerente com suas bases amor e caridade. Eis o nosso alerta!

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Os donos da Umbanda

Tenho lido, sem assombro, pelas redes sociais, muitos comentários, verdadeiros posicionamentos, sobre “na Umbanda não existe isso”, “A Umbanda não faz assim”, “na verdadeira Umbanda é desta forma”… e por aí vai…

Senhores “donos” da Umbanda, mantenham a calma!

Como se fosse necessário relembrar-lhes todas as agruras que nos perseguem desde sempre. Se sofremos (presente e pretérito) com os olhares atravessados de outras expressões religiosas que, não nos conhecendo em essência, não nos toleram, será que “dentro” da mesma crença precisamos desviar das fulminantes miradas?

Entender (não disse aceitar) o preconceito inter-religioso, até entendemos justamente pela falta de vontade de “eles” quererem nos conhecer, entretanto (ah, esses “entretantos”!!!!), viver tais asseveradas críticas dos que se dizem irmãos de fé é duro demais.

Que instituição, seja ela da ordem que for (política, religiosa, cultural), pode permanecer se é minada desde dentro?

Nossas religiões, não podemos negar, possuem bases em matrizes muito ricas em histórias e mitologias. São multicoloridas as partes que nos integram. Se assim o é, como querer encarcerar em uma lista limitada de itens como um dogma e seu caráter indiscutível? Se somos capazes de notar os malefícios que regras incontestáveis trazem para outras religiões, seria lúcido querer fazer o mesmo com as doutrinas que, por seu histórico de formação, já sofreram tantas perseguições e aplastamentos?

Não se trata de propagar a liberdade sem freio do famoso “cada um faz o que quer”. Não! O alerta é para buscarmos, em um diálogo fraterno, considerar, respeitar e inclusive trazer propostas de alinhamento.

Como umbandistas, não podemos nos afastar dos pilares mais lindos que aprendemos com a espiritualidade: RESPEITO e HUMILDADE.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

O presente

Bem sabemos que o ensinamento pode variar na sua origem (geográfica ou filosófico religiosa), mas jamais deve se restringir por causa disto.

Não é o seu berço que proíbe o público que pode aprender e sim o limite de compreensão de quem se porta inflexível!

Tal introdução tem por objetivo justificar os motivos pelos quais nossa reflexão não tratará especificamente de Umbanda, mas, por ser bem aplicada por todo e qualquer umbandista que busque o seu crescimento, pareceu-me oportuno contar-lhe uma bonita parábola vinda do oriente.

Conta-se que um certo dia, Siddhartha Gautama – já iluminado, ou seja, já considerado o Buddha – estava sentado com os seus discípulos a sua volta. Aproximou-se deles um homem que havia escutado as histórias sobre aquele ser iluminado e como Ele ensinava sobre a não-identificação do ego e, com isso, o não-sofrimento.

Desconfiado e duvidando de tamanha santidade, o desafiador empertigado sentou-se também junto a todos e começou a proferir palavras ofensivas para o Senhor Buddha. Insultava-o com as mais duras e grotescas frases.

Todos, pelo inusitado da situação, estavam perplexos e estupefatos.

Acabadas as ofensas, cansado de tanto falar e xingar, o homem se calou. Um dos devotos, que presenciou a situação, dirigiu-se ao Mestre e lhe perguntou:

- Mas o Senhor não vai dizer nada? Este homem lhe ofendeu.

Sereno e demonstrando calma na voz, o Iluminado respondeu:

- A quem pertence um presente que você não quer receber?

O discípulo lhe disse:

- Ao dono do presente já que não se quer recebê-lo.

- Pois então. É exatamente isto. Como não reconheço como para mim o que este senhor trouxe, não o recebo. Não é meu!

Dizem que, envergonhado do que havia feito, o ofensor largou tudo na vida e passou a seguir o Buddha.

Trocando em miúdos, o que podemos depreender deste conto?

Quantas vezes nos enredamos diante daqueles que têm a capacidade de nos desestabilizar? Quantas vezes nos deixamos levar pelas provocações e terminamos tão iguais aos ofensores?

Não é uma tarefa fácil! Não, não é! Não é difícil “entrar na vibe” (como dizem hoje em dia) do desassossego, da fúria, das disputas e das discussões. Mas, a pergunta que gostaria de deixar para todos nós, que batemos no peito que somos umbandistas e aprendemos sobre fraternidade, caridade e amor, é:

Qual o nosso esforço em nos tornamos pessoas melhores? Até quando, diante das provocações – muitas vezes infundadas e tolas – responderemos da mesma maneira e gastaremos a nossa energia, quando poderíamos empregá-la de forma mais digna do título que atribuímos a nós mesmos como filhos de Zambi?

Pensemos nisto quando o ofensor vier nos provocar. Vale a pena? Somos iguais àquele que diz os impropérios?

Que Pai Oxalá nos abençoe a todos!