segunda-feira, 21 de novembro de 2022
Filhos de pemba
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Intolerância intrarreligiosa
Temos trazido à reflexão o tema – e não sem motivos – da intolerância que as religiões que possuem influência das matrizes africanas têm sofrido em nosso país (desde sempre, infelizmente).
Basta nos atermos à história e verificaremos que os cultos cristãos-europeus foram (e são) os que mais resistência ofereceram. Já tivemos a oportunidade de tecer comentários sobre possíveis razões que fazem com que os intolerantes sejam assim chamados. Via de regra, fora as motivações políticas escusas, não aceita e critica o outro aquele que não conhece ou não querer se esforçar para conhecer. Ou ainda, os que buscam informações em lugares não confiáveis sobre a verdade (os fundamentos, as bases e as práticas) da religião.
Entretanto, hoje, voltemos nossa atenção para um processo mais doloroso de intolerância: aquela que vem dos que se dizem “irmãos de fé”.
Ainda que nossa explanação possa servir para muitas expressões religiosas, trataremos, aqui, de focar somente na Umbanda. Sabemos que somos uma religião plural, pois em nossas bases recebemos diversas influências (africana, européia, indígena, oriental, etc.). Isto nos torna belissimamente multicoloridos e, ao mesmo tempo, passamos a enfrentar alguns problemas devido ao fato de não termos uma uniformidade nas práticas.
Se já nos machucam as pedradas (e entendamos por pedra as físicas bem como as ofensas) daqueles que não nos conhecem e se armam das notícias inverídicas maldosamente espalhadas, imaginemos a dor que sentimos quando percebemos que o apedrejamento vem de “dentro de casa”.
Não “tapemos o sol com a peneira”. Há, entre aqueles que se dizem umbandista, alguns que não conseguem entender a prática alheia. Tão ensimesmados são capazes de dizer que qualquer coisa diferente dos processos de seu terreiro não é Umbanda. Se arvoram em criticar e só enxergam as suas verdades. Acaso conseguimos definir como única a Umbanda? Se a Casa de um irmão tem por base algo que a minha não tem, a dele não é Umbanda? Que pretensioso eu sou!
Por diversas vezes, dissemos (e seguiremos dizendo) que se a sua casa é de Umbanda, a Umbanda não é só a sua Casa.
É bom que ressaltemos (e é bem verdade) que, ultimamente, temos visto um grande número de lugares e pessoas se dizendo umbandistas, com práticas que denigrem a religião e ferem os fundamentos do que somos. Aqueles famosos “marmoteiros” que fazem trabalhos de magia que não condizem conosco ou os que “incorporam” entidades no mínimo, esquisitas (para não dizermos aberrações). Contra esta categoria temos que lutar! Temos que ganhar voz todos nós: dirigentes de terreiros, médiuns, ogãs, frequentadores de boas casas, etc. Não podemos nos calar diante de fatos tão grotescos que denigrem a nossa fé.
Mas devemos ter muito cuidado para que não acabemos indo para o extremo da intolerância, pois se assim o fizermos, estaremos agindo da mesma forma como os nossos detratores têm agido conosco ao longo dos anos.
Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Antes de apontar o dedo para uma prática umbandista, lembre-se de investigar o que a conforma. Busque conhecer qual é a história daquele local, quem são as pessoas que constituem o terreiro. Não corra o risco de criticar antes de buscar entender.
Intolerância é crime de qualquer jeito: seja partindo daqueles que estão “de fora” como os que se julgam “estar dentro”.
Axé!
Nosso Saravá!
quarta-feira, 10 de julho de 2019
As diferenças de Umbanda
Que diferença há entre um terreiro que possui um bom projeto de divulgação nas mídias sociais, bem estruturado, com canal de vídeos dos eventos, com post esclarecedores sobre Umbanda, um número gigantesco de seguidores e record de acessos e aquela casinha, no fundo do quintal, de dezesseis metros quadrados, onde muitos da corrente mediúnica, bem como seus seguidores, não possuem nem uma rede social?
Quais seriam as divergências entre aquelas casas com altares escalonados e iluminados com neon e outras com seus congares sendo uma única mesa com as imagens, velas e flores?
O que nos faria apontar a “qualidade” das giras? A quantidade de médiuns na corrente? As diferentes guias nos pescoços? A fila de consulentes na porta desde muito cedo? As roupas de diferentes cores segundo a sessão?
Talvez a possibilidade de haver no centro alguma pessoa de notoriedade pública capaz de tirar a casa de algum problema? Um frequentador de profissão ligada ao Direito que possa entender de leis e ajudar à casa a não enfrentar nenhuma sansão?
Se tudo isto pode “parecer”, pelo aspecto externo, algum item levado em consideração no momento de se dizer que uma casa é de Umbanda, o legado mais importante passa longe.
O que diz que uma casa é de Umbanda? Que critérios podemos estabelecer para isto?
Ando me perguntando onde estão os princípios formadores de nossa história?
Por onde caminha o humilde que acorria a benzedeira porque dinheiro não tinha pra procurar “um dotô”? Cadê a roupinha branca, modesta mas alva, alva dos irmãos de fé? Alguém tem ouvido por aí os conselhos, com alguns errinhos de concordância nominal, mas absolutamente certeiros nas soluções?
Longe de mim estar fazendo apologia de que não podemos nos adaptar a uma nova realidade. O que o meu saudosismo está gritando é pela recuperação da essência.
O que me faz umbandista não são as guias de cristal no pescoço (ainda que eu possa tê-las). O que confere a uma casa a honra do título de templo umbandista não está no conforto de cadeiras, luzes e ventiladores (mesmo que não seja um sacrilégio ter tudo isso).
Se alguma entidade que baixa nos terreiros disser algo diferente do que acredito – que a (Umbanda é amor e caridade – por favor, avise-me, pois além de estar desatualizado, devo estar louco.
Saravá, povo de Umbanda. Saravá, Pai Oxalá!
quarta-feira, 26 de junho de 2019
Filhos de um mesmo Deus
É triste constatar que debaixo do céu da existência todos sejamos frutos do mesmo ser criador e ainda não tenhamos entendido isto. Lindos são os discursos que empoderam as religiões, porém nos afastam do Mandamento Supremo do “amai-vos uns aos outros”!
Sabemos que, na Lei do Livre Arbítrio, haverá o momento de reequilibrar as ações. Tal certeza não deve nos fazer esperar calados uma justiça superior. Da mesma maneira que não podemos nos intitular agentes das correções alheias. Em outra palavras, nem devemos acatar, em silêncio, as atrocidades que desferem contra as nossas crenças, assim como não é lícito retribuir os ataques com iguais instrumentos.
Em uma linha muito tênue entre se resignar e fazer justiça com as próprias mãos está o caminho do aprendizado.
O intelecto humano é capaz de assimilar conceitos fundamentais como a gênese divinal do homem; consegue entender que, em que pesem algumas diferenças mitológicas, somos oriundos de uma mesma Força Superior, o que nos torna, em tese, irmãos da mesma caminhada chamada vida.
Se por um lado este fator racional possibilita-nos construir as relações sociais pautadas em Instituições de fé como as religiões, somos desbaratados quando desvinculamos a compreensão teórica do maremoto emocional que nos faz defender as nossas convicções. Somos avassalados pelo desequilíbrio das tentativas de convencer os outros de que somente aquilo que cremos é o que se aproxima mais da verdade. E para tanto, somos capazes de tudo. Há casos, inclusive, onde a violência ultrapassa as raias dos discursos e se transforma em atos.
Vivemos isto desde sempre, mas com o advento das notícias on line, on time, parece-nos que os casos aumentaram sobremaneira. Pelos mais diversos canais de informação vemos crescer o número ações de intolerância. Em nome de um mesmo Deus criador, homens se arvoram o direito de serem mais dignos do reconhecimento da sua linhagem divina que outros. Colocam por terra todas as doutrinas convergentes da origem da raça e terminam por dar testemunho contrário a tudo que o Senhor Jesus nos deixou de legado: no amor ao próximo!
“Até quando” tem sido a minha constante indagação diante de tantas atrocidades cometidas em nome do Pai. Certamente para tudo há um propósito e ao termos que viver e conviver com tamanhos disparates é porque está em nosso destino aprender com os conflitos.
Filhos de fé, a Umbanda nos chama na resistência, não mais da chibata das senzalas, mas na construção de uma história digna. A bandeira de Oxalá tremulará sempre que houver de nós o comprometimento com o reto agir, longe das distorções de uma falsa liberdade que gera problemas de identificação em nosso meio. Se outras denominações religiosas nos criticam pelo que veem (a aparência), reflitamos que para além do que deixamos transparecer para ter que demonstrar.Dirigentes espirituais, médiuns, e toda a palheta de irmãos que pisam no terreiro temos a obrigação de refletir a luz divina que em nós habita. Deixemos de lado as “picuinhas” geradas a partir das diferenças de ritos para nos unirmos a uma causa muito mais nobre: a honra de nos levantarmos diante de todos e dizermos “sou umbandista”! Axé.
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Ser umbandista
a Umbanda é a manifestação do espírito para a caridade. Não podemos perder de vista esta belíssima mensagem.
E como estamos fazendo isto? Que movimento temos tido em relação a cumprir com tal fundamento?
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Cortando na própria carne
Sabemos que desde sempre, sofremos o preconceito de muitas denominações religiosas (principalmente as mais vinculadas à cultura europeia). Já no sangue e suor das chibatas, os nossos ancestrais negros tinham que esconder suas crenças, disfarçá-la no culto aos santos católicos para encontrar conforto e alento dos seus orixás para aguentar as agruras da escravidão.
O cenário mudou para a urbanização das cidades, mas as perseguições seguiram. Apesar da criação de leis que punem todo tipo de intolerância, consagração de Dias comemorativos etc., ainda vivemos conturbações e falta de compreensão. Somos atacados; as Casas de santo quebradas; xingam-nos de adoradores do “outro”, ou seja, a ignorância galopa a passos largos e as consequências vemos expostas nos diversos tipos de mídias.
Entretanto, não podemos “tapar o sol com a peneira”! Nossas religiões que possuem também influências africanas enfrentam problemas internos. Por diversas razões (uma delas talvez seja a falta de dogmas e regras escritas), há uma diversidade de práticas que acarretam em distanciamentos de leis fundamentais. Agora, então, na Era cibernética – ou pós-moderna, como quiserem – vemos “invencionices” que atrelam à Umbanda. São associações com outras artes adivinhatórias; inserção de falanges duvidosas, e tantas outras coisas que nos assustam.
E os leigos “do riscado da pemba” nos julgam pelo que veem. Tomam o todo pela parte. Em outras palavras, os que nos criticam o fazem por verem tanta tolice intitulada como umbanda. Eles já não querem mesmo nos respeitar, e ainda têm essas informações truncadas e equivocadas… olha “o prato cheio” para lançarem suas farpas sobre a religião.
Já passou da hora de uma atitude ser tomada. Uma religião inteira não pode “pagar” pelos desmandos de alguns. Já sofremos (no passado e no presente) muito para que tenhamos dentro dos próprios terreiros quem suje a nossa imagem com as tintas escuras da marmotagem.
A Umbanda, como um todo, e seus princípios precisam de resguardo. Não estou aqui levantando bandeiras de policiamentos ou repressões. Creio firmemente que nosso dever reside em usarmos da palavra como instrumento de alerta e disseminação do que realmente nos conforma.
É hora, é hora! Não é possível ver tantas coisas em nome de nossa religião servindo de argumento para os detratores da Umbanda. Se até nós reconhecemos que algumas práticas são mentirosas, ardilosas e difamadoras, o que podemos esperar dos que buscam avidamente motivos para nos vilipendiar?
Lembremos, aqui, alguns fundamentos básicos de nossas Casas:
- - somos uma religião que prega o amor e a caridade (não cobramos por isso);
- - nossas tradições, em sua maioria, transmitidas pela oralidade, são sagradas;
- - temos os mistérios da religião, mas não somos misteriosos;
- - não cultuamos como um de nossos deuses a figura, criada pela tradição cristã, do chefe dos portais do plano infernal;
- - não atribuímos títulos de líderes religiosos em cursos. Nossa formação sacerdotal é tempo de aprendizado no chão do terreiro, respeito aos mais velhos, olhos e ouvidos atentos e, obviamente, a orientação do Plano Superior;
- - estudamos sobre a religião sim, mas não somos escola de “ensinar a ser umbandista”. As informações JAMAIS substituirão a formação;
- Repeito, fé e dedicação constituem o sustentáculo da Umbanda!
Por isto, meus irmãos de fé, sejamos o vento que tremula a “bandeira de Oxalá” parar que, desfraldada, ela mostre ao mundo inteiro a nossa Umbanda!
Axé e Saravá!
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Respeite a minha Umbanda porque eu respeito a sua
Mais uma vez, trago-lhes um tema sensível sobre a nossa religião que merece ter um espaço para a reflexão: os problemas intrarreligiosos. Tenho, por diversas vezes, apresentado alguns questionamentos que são frutos de conversas com irmãos de fé que labutam pela organização, respeito e legitimidade da Umbanda.
O cenário atual caracterizado por uma maior informação sobre os acontecimentos nacionais tem revelado um aumento significativo de enfrentamentos relacionados a questões de incompreensão e não aceitação da crença alheia. Basta que abramos um de nossos navegadores e coloquemos “intolerância religiosa” para vermos dados estatísticos, política para combate de crimes religiosos, solidariedade e apoio diante das atrocidades. Ainda é pouco efetivo, mas são os primeiros passos. Que não percamos a esperança e mantenhamos a crença de que o caminho é a harmonia e evolução humana!
Entretanto, o cerne de nossa “conversa” não ultrapassará os muros do terreiro. Os problemas inter-religiosos são patentes, como mencionamos acima, nas redes sociais, nos noticiários e na vida (quem de nós nunca ouviu um umbandista ou candomblecista relatar um episódio de violência sofrida?).
Retomando a estrutura de apresentar algumas discussões que tive com amigos-irmãos, no final do ano passado, participando de um bom debate sobre nossa Umbanda, vimos diversas histórias de adeptos da religião revelando uma determinada inflexibilidade com relação à prática de outras Casas. Imaginem, caros leitores, o que podemos pensar quando vemos umbandistas, cheios de razão, dizendo que a Tenda de outro umbandista não é Umbanda pois não segue os mesmos passos da Casa de quem fala? Mais ainda, se compreendemos a pluralidade da religião (pelos motivos sociais, regionais, culturais, históricos, etc.), como podemos apontar o dedo para outro irmão de fé e afirmar que para ser Umbanda tem que ser assim, assado, cozido e ensopado?
Creio que muitos estão, neste momento, entendendo o teor do texto e estão se lembrando de cenas onde a situação aconteceu.
Já mencionei, em meses anteriores, uma das minhas cautelas ao ver os “donos” da Umbanda ditando suas regras como dogmas e criticando aquilo que diverge de suas formas de cultuar o sagrado.
Longe de mim que fique parecendo que sou contrário a medidas de proteção e prevenção da religião, pois, na mesma medida das intolerâncias inter e intrarreligiosas, vemos também um processo de divulgação de fundamentos que não são de Umbanda e que alguns “sem-noção” tem afirmado pertencer a nossa fé. Os marmoteiros, os criadores de rituais estapafúrdios, isto sem falar nos “inventores” e complicadores de algo que é tão singelo, simples (sem ser simplório) que é a Umbanda.
É triste chegarmos a tais conclusões, mas a Umbanda, em expansão, precisa de cuidados. A Umbanda não é de ninguém, mas é de todos. A Umbanda não tem dogmas, porém tem fundamentos. É tempo de se pensar em formas de alinhamentos, sem enclausurar. Não podemos perder a chance do diálogo fraterno. O que não é mais possível é percebermos o que alguns estão se arvorando como controladores das bases da religião e permanecermos parados, pois corremos o sério risco de que em pouco tempo, além das diferentes formas da mesma fé, vejamos criações absurdas que venham a ferir o amor e a caridade, símbolos da religião natural de Umbanda.
Termino minhas palavras valendo-me – mais uma vez – da frase de um grande amigo espiritual que me acompanha e muito me ensina:
“A Sua casa pode ser de Umbanda, mas a Umbanda não é só a sua casa!”
Pensemos sobre isto!
Saravá, Umbanda. Axé, irmãos de fé!

