quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O bom médium e o médium bom

Como de costume, a insônia fez-me abrir os olhos às 3 horas da manhã. “Escutando” ao longe o toc-toc da bengala, antevia quem se aproximava. Como soe acontecer, Pai Joaquim se senta no seu banquinho ao lado da cama e me pergunta1:
- Filho, qual é a diferença entre o médium bom e o bom médium?
O silêncio era proposital da parte dele. Esperava que eu respondesse. Mediante o meu silêncio, também proposital que significava “não sei se eu sei”, o negro velho voltou a falar:
- Nem todo bom médium é um médium bom.
Diante da sentença, o meu silêncio aumentava, agora pela questão de buscar mais tempo para refletir sobre o que tinha ouvido. Assim sendo, ele prosseguiu:
- Um bom médium é aquele que se entrega completamente ao serviço espiritual para que as entidades de luz possam “baixar” em uma gira. Ele incorporado deixa que o espírito que se acopla ao seu corpo energético conduza o trabalho de forma plena. O bom médium é uma referência para a assistência que acorre a um terreiro em busca de ajuda. “Aquele Caboclo é muito bom”; “Nossa, como a Preta Velha de fulana é certeira!”, estas e outras frases indicam o bom médium. O bom médium é um aparelho com alto grau de sensitividade.
- Já o médium bom é aquele que está para além da “perfeita incorporação”. O médium bom não está restrito ao momento em que está vestido de branco no terreiro, no dia de sessão.
Nem sempre o bom médium dá bom testemunho do que aprende na Umbanda. Em compensação, o médium bom é uma referência para todos que o conhecem como exemplo de pessoa íntegra, amorosa, fraterna, paciente e compreensiva. O médium bom é o que faz com que pessoas externas à religião formulem a seguinte frase: “A Umbanda, considerando como o fulano é, deve ser, realmente, uma religião que pratica o bem e faz crescer os seus adeptos.” O médium bom é o reflexo, na Terra, daqueles que vêm de Aruanda. O médium bom é um verdadeiro ser humano (na mais linda plenitude da expressão).
E a pergunta que encerrou a conversa foi: Você quer ser uma pessoa reconhecida porque que é um médium muito bom na tarefa de dar passagem às entidades ou prefere ser um médium reconhecido por ser um homem bom?


1 Como autor do texto, arbitrariamente, resolvi “traduzir” a fala do Preto Velho para um discurso mais próximo à linguagem normativa.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Quaresma ou não Quaresma?

Demorei um pouco para trazer esta reflexão aqui. Muito provavelmente, devido ao meu tempo de maturação quando as ideias se mexem e remexem minhas emoções.
Logo assim que terminaram os “dias de Momo”, vi, em diversos grupos dos quais faço parte nas redes sociais, discussões (às vezes muito acirradas, beirando às ofensas) a respeito da quaresma na Umbanda.
As perguntas, variando em poucas estruturas, tinham o intuito de saber a opinião das pessoas sobre o que achavam de os terreiros respeitarem o período.
Como disse, li diversas considerações no mais amplo espectro de visões. Foi a partir dessas leituras que comecei meus questionamentos:
1- Todo ano a mesma história, a mesma pergunta.
2- Qual o objetivo de levantar essas discussões?
3- O que muda na prática e na crença da religião as divergências dos procedimento?
4- Há UMA lei que determine seguir ou não o calendário cristão?
Minha vontade, e não passou de vontade para não engrossar as fileiras das dissensões, foi a de responder à pergunta da seguinte maneira: “Se o seu terreiro suspende atividades durante a quaresma e você está feliz com isso, ótimo! Se o seu terreiro entende que não deve seguir essa prática e acha que deve funcionar da mesma maneira como nos demais meses do ano e você está feliz com isso, que bom para você! Em poucas palavras, seja feliz com aquilo que acredita e pratica!”
E antes que as voltas dos pensamentos cheguem à interrogação “E você, o que acha?”, apresento algumas ponderações pessoais.
Não é uma novidade para nenhum de nós que a Umbanda tem em suas raízes (com maior ou menor influência) muitos fundamentos e tradições das culturas indígena, africana e católica (por somente citar três). São as giras de caboclos, o culto aos Orixás, e, em muitas casas, os altares – congás – com imagens católicas que comprovam essas bases das expressões culturais que nos formam. Quantos umbandistas, quando em momentos de aflição e dúvidas, não lançam mão de seus pedidos aos santos católicos (e não no sentido sincrético da questão). Quantos adeptos da religião levam seus filhos para serem batizados na Igreja, realizam suas cerimônias de casamentos ou mandam rezar missas de 7º dia de falecimento de um ente querido?
Cabem duas perguntas (retóricas tão somente): Para algumas coisas, seguem os rituais e os procedimentos católicos e para outro não? É uma questão de conveniência?
Por outro lado, pensemos sobre a suspensão das atividades de um terreiro na quaresma levando em consideração as próprias religiões que tem em seu calendário este evento.
As igrejas deixam de funcionar ou deixam de realizar seus ritos completamente? Já pararam para pensar sobre o que a igreja faz ou deixa de fazer durante o período entre a Quarta-feira de cinzas e o Domingo de Páscoa? E os motivos e justificativas para isso?
Sei que não respondi diretamente o que alguns gostariam de ler/ouvir sobre o que acho do tema.

O que realmente sei é que antes de começar uma batalha de imposições e tentativas de afastar ou aproximar a Umbanda de tal ou qual matriz, devemos lembrar que nossa amada religião é plural, como plural é o berço pátrio onde ela nasceu. Uma religião que abraça e acolhe, respeita e entende a todos os que cruzam os portais de uma Tenda não pode criar estranhamentos. Por fim, ainda que saibamos que as arestas e tensões não são criadas pela Umbanda e sim pelos homens que frequentam as Casas, é nosso dever dizer: “buscai primeiro o reino de Deus (Olorum, Oxalá, Tupã, como achar melhor) e a sua justiça, e todas as suas coisas vos serão acrescentadas.” (Mateus 6: 33).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Santos e Orixás

Não vou entrar no mérito da questão em termos de insuflar ainda mais as discussões ou divergências a respeito do tema que lhes trago hoje. Não costumo ampliar confusões e não sou adepto dos “disse-me-disses” que muitos insistem em acirrar. Sempre achei que a lugar algum se chega assim.
Entretanto, o que me traz aqui, neste momento, é uma reflexão sobre um post de um dos grupos do Facebook do qual participo.
Lançava-se uma pergunta (sem contextualização, diga-se de passagem) sobre o que as pessoas pensavam a respeito da nossa amada religião de Umbanda e o sincretismo das imagens católicas nos nossos congás.
Antes de prosseguir, faço questão de reafirmar que meu objetivo está longe de fomentar discórdias. Só estou “pensando alto” e tentando, na medida do possível, traduzir o que vai em meu coração umbandista.
Pois bem. Entendo quando alguns irmãos da caminhada buscam justificar a questão da utilização dos santos pelo viés histórico, quando era impossível para os negros escravos manifestarem as suas crenças livremente e em uma espécie de “drible” antepunham um São Jorge ou um São Sebastião para louvar a Ogum.
De atos como estes (e de muitos outros) nossa religião foi se formando. Faz parte das bases. Mas daí a ser taxativo, dizendo que não precisamos mais de Jesus no centro do altar de braços abertos, de Senhora de Santana, Nossa Senhora da Conceição, etc, parece-me um tanto quanto inflexível e desnecessário.
A Umbanda se caracteriza pelo respeito e pela liberdade das ações. Liberdade tantas vezes tolhida no cativeiro e nas senzalas. Como impedir a manifestação de nossa sacralidade contida na expressão histórica da formação da religião? Por que afirmar que não “devemos mais” nos esconder por detrás de um santo católico? Estamos mesmo utilizando os santos para nos camuflarmos?
Minha perspectiva, atualmente, diante do congá não é o de ocultamento ou disfarçamento da fé. Confesso que não é mesmo! Quando “bato cabeça” diante da força do altar de meu terreiro, não passa por mim, nem de longe, a sensação – ou o pensamento – de que estou fazendo algo proibido no que tange ao que acredito e que, por esta razão, estou disfarçando.
E mais: minha opinião é a de que a Umbanda é tão abrangente e abraça a todos de forma igual que cabem, perfeitamente, em nosso panteão Miguel Arcanjo, São Dimas, Oxossi, Yansã etc.etc.etc.
Em suma. Para mim, não preciso colocar somente as figuras – lindas por sinal – dos Orixás de origem africana no meu congá. A religião que eu professo canta pontos para São João Batista e para Xangô. Abre as portas do terreiro no dia de Santa Bárbara, São Jorge, Obaluayê, Erês, Pombogiras e Malandros.
Se por um lado, marcaram-nos profundamente as questões do preconceito e as perseguições ao longo da história e hoje queremos defender a bandeira da livre expressão na crença dos Sagrados Orixás, por outro lado, creio eu, não podemos ser tão reticentes (ou pior, intransigentes) sugerindo que apaguemos a beleza plural que configura a Umbanda.

Acabo minhas considerações diante de meu amado São Jerônimo saudando-lhe com o arrepio de sempre que pela coluna sobe até a minha coroa: Kaô Kabelicê, meu Pai!